quinta-feira, 3 de abril de 2008

Cumplicidade

Estou quieta...imóvel...
O silêncio só é quebrado pelo som da tua respiração ritmada, constante, segura, doce...

Os passos, lá fora, já não se ouvem, as gargalhadas calam-se aos poucos. Só estamos nós. Estou a afogar-me no teu olhar...

Estamos sós dentro destas quatro paredes e, no entanto, sinto-me tão cheia de vida, tão cheia de ti...

Conheço-te como é impossível conhecer outro alguém. Conheço-te poro por poro, milímetro a milímetro, pormenor a pormenor. E tu conheces-me...
Percorres-me com a ponta dos dedos, quase sem me tocar, como quem toca algo perfeito que eu não sou. Percorres-me com o olhar, preenches-me com beijos que reconheço e prevejo.

Estamos juntos. Com a testa encostada à minha é assim que te sinto: como parte de mim.

Pertence-te o meu ser. Corpo, mente e coração, não necessariamente por esta ordem, se é que ela existe.

Procuro-te mesmo quando sei exactamente onde estás. Mesmo quando estás à minha frente, colado a mim...mesmo quando estás dentro de mim. Procuro-te guiada pelo receio de perder um gesto, um segundo, um olhar. E tu estás logo ali. Como quem sabe, quem sente que te procuro e quer evitar essa busca, quer evitar qualquer cansaço, quer evitar qualquer dor.


Posso dormir ao teu lado como não posso dormir em mais local nenhum, fazendo do teu peito a minha cabeceira, do teu tronco parte do meu, das tuas pernas o meu descanço.
Quando acordar, sei exactamente como te tocar, sei exactamente como te sentir, sei exactamente como te falar, porque és parte de mim.

Não existem almas gémeas. Não és a minha alma gémea. És, sim, a minha razão, a minha única e grande razão. És, sim, a metade que não perdi porque foi sempre minha e que, junto de mim, forma um único ser. As almas gémeas não formam um só...formam duas "peças" iguais. E nós não somos iguais, somos um só.

Nada encaixa com a mesma perfeição.

Estas deitado ao meu lado e o mundo desapareceu para lá das paredes que nos cercam.
Não disse uma única palavra.
Mas tu sorriste, porque compreendes tudo aquilo que no silêncio eu calei. Cumplicidade...muita cumplicidade...

1 comentário:

Filho disse...

Lá está...cumplicidade...se soubesses o que sei sobre isso...enfim, não vale a pena mencionar...mas creio que te percebo perfeitamente...

Já há muito que não falava em cumplicidade, pelo menos a um nível como o que tens aqui no texto...

Mas tens razão no que dizes. Gostei deste texto. Sinto que há ali coisas que só os cúmplices sentem...

Já agora, se quiseres, vai ao meu blog e procura um texto que se chama "Cumplicidade", julgo que está no arquivo de Outubro ou Novembro. Vais gostar de o ler e vai servir para perceberes o que digo quando falei, mais acima, em saber o que é a cumplicidade...

Continua a escrever. Bj.