quinta-feira, 24 de julho de 2008

Subo as escadas devagar. Tenho, até, tempo de fitar os degraus, um a um.
A vagareza dos meus passos deixa-me tempo para pensar em cada movimento como se sem isso não soubesse o que tinha que fazer a seguir.
Primeiro o esquero, depois o direito.
Mecânico.
Como numa linha de montagem.
As luzes estão ligeiras, bem à medida da luz do dia que se põe.
Sem pressas, como as minhas passadas.
O sol vai longe, e longe vai também o amarelo forte que o preenche.
Agora, não há mais senão uma meia circunferência, cada vez mais pequena, de um vermelho que não permite mais que uma luz de presença, como aquelas se dão às crianças pequeninas quando vão dormir.
As mãos nos bolsos e o olhar quebrado não me dão alento para os degraus que tenho à frente, mas também, verdade seja dita, nem sequer penso neles...não preciso do alento!
Se continua a este ritmo, a noite vai cair antes de chegar ao topo.
É sempre assim: o vagar dos meus passos deixa a noite chegar antes de mim e, depois, caminho às cegas, sem saber para onde vou e sem, contudo, parar...
Um dia, vou deixar de subir constantemente estes degraus. Quando a noite cair, rir-me-ei dela, e antes do sol se pôr, poderei olhar para ele e dizer-lhe adeus, sem medo de perder o ritmo aos passos.
Mas, por enquanto, o melhor é não me dispersar com pensamentos ligeiros.
Concentração: esquerdo, direito, esquerdo, direito...
Muito devagar, sem perder o fio à meada...tenho tempo...a noite ainda agora se pôs..vou demorar-me nas pedras dos degraus que odeio, como se fossem o amor da minha vida!

2 comentários:

Filho disse...

Muito forte este texto. Não imagino o que terá estado na origem dele, mas posso garantir que gostei desta forma mais apaixonada de escrever ;)

Bj

Joaninha disse...

miss you*