Espreito, pelo buraco da fechadura, as brincadeiras no recreio que foi o meu, o nosso.
Espreito e estamos la todos! Os sorrisos e os olhares descontraídos não deixariam transpôr, a quem quer que fosse, aquilo que o tempo traria.
Quando o sol nascia, nascia o sorriso e as gargalhadas também não tardavam, porque estavamos juntos, todos nós. E sentiamos que não precisavamos de mais nada! Só úns dos outros. Protegiamo-nos, com meio metro de tamanho e um coração enorme, que mal nos cabia no peito.
As brincadeiras eram as mesmas, todos os dias e não nos cansávamos, porque eram uma infinidade delas, todos os dias. De princesas a dragões, de feiticeiros a mutantes, de cantoras a jogadores de futebol, de familias inteiras a crianças perdidas, de sonhos a fantasias...conseguiamos tranformar o mundo imaginário das brincadeiras em pura realidade, em que o tempo durava o que queríamos e o dia só se punha quando estavamos cansados ou quando a imaginação trazia à tona uma nova história.
Entre nós, o difícil era parar.
Os nossos "X-man", que revejo em filmes, agora, tinham magia em cada palavra, porque éramos nós, seríamos sempre nós e estariamos sempre juntos. Era tudo perfeito, até as pequenas zangas que não duravam mais de meia hora, mesmo quando jurávamos (quase nunca) que seriam eternas.
O cheiro doce dos olhares cúmplices, com o passar do tempo, não mudou. A distância nunca foi imensa, apesar de ser maior que a desejada, nesses tempos, e mesmo assim, quando nos juntávamos, o tempo dissolvia-se em promessas de mudar tudo isso.
Cinco...
Sempre fomos "os cinco" e mesmo quando os grupos se misturaram, se separaram, se trocaram, fomos sempre nós cinco, "os cinco" e achámos que ia ser assim para a eternidade.
Nós, as princesas, sempre protegidas, sempre trazidas com todos os cuidados, debaixo do ombro, eles, os duques, os fortes, os companheiros, os protectores, como nunca terei outros...
Nunca disse, nunca foi preciso...mas garanto que gritei, muitas vezes, dentro do peito, o quanto esses tempos, essas brincadeiras, essas memórias e essas vidas, que ainda viviamos, eram o meu pilar.
Quando o tempo passa, nem sempre é possível voltar atrás, nem sempre é possível remediar, porque o tempo não pára e não espera e, sobretudo, porque o tempo mostra, muitas vezes (vezes demais) o verdadeiro significado das palavras "tarde demais".
Nunca soubemos o verdadeiro sentido delas, porque estávamos juntos. E quando estávamos juntos, tudo era possível.
Quando fomos crescendo, os sentimentos misturaram-se...como teria que acontecer, provavelmente, porque era isso que a idade nos exigia, sem querer. As brincadeiras deixaram de ser reais e o real, às vezes, não parecia ser mais que uma brincadeira. Mas nunca, nunca deixámos que o que nos unia se desvanecesse.
Nunca antes tinha compreendido o porquê de se mostrar, todos os dias, o amor que une tempos, distâncias, memórias...o nosso amor, d' "os cinco".
Não quis nunca dizer adeus, nenhum de nós quis e, a verdade, é que já não tivemos tempo de dizer adeus àquele que soube sempre manter-nos juntos, manter-nos vivos, aquele que era o mais sábio e o mais inocente, o mais esperto e o mais brincalhão, o mais ponderado e o mais louco, o melhor amigo que todos nós podíamos e devíamos ter, para sempre...
Olho pelo buraco da fechadura e estás lá...olho e vejo-te...
Hoje, nós os quatro somos, juntos, um castelo de areia que a água insiste em derrubar, a quem faltam os pilares...a quem falta, literalmente, o quinto elemento.
Com o peso da falta que fazes, com o medo de que seja sempre assim, tento buscar a força de nós quatro, para tentar derrubar a porta que não se abre, a porta da fechadura por onde espreito.
E, então, de repente e como uma pontada no peito, percebo: o buraco da fechadura não é mais que a minha mente, o recreio...são só memórias!
P.S.: Este texto é dedicado aos cinco...e para todos nós, uma marca da saudade que ficou...
Tânia, Ricardo, Bruno (mano)...vocês três manterão sempre, comigo, um pouco d'os cinco vivos...Luís, estás em todos e em cada um de nós...serás sempre o nosso "Wolverine", o irmão que nos falta e o anjo que "ganhámos"...
1 comentário:
Parabéns pelo texto...
I'm speechless...
Bj
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