sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Buracos e pedras soltas...

Passo a passo, percorri essa rua que, um dia, foi calcetada. Dela, hoje, sobram apenas buracos e pedras soltas. Irónico, quase a sinto como um retrato meu.

Perco-me em memórias que um dia trouxe mais longe mas que voltam, sem permissão e remexem todos os cantos do meu ser. Tropeço nas pedras que se prendem nos sapatos altos que me ritmam o andar.

Oiço a tua voz, longe, como se ecoasse eternamente na minha mente. Já não sei sequer, à força de tanto repetir as tuas palavras, o que dizes.

Não chove, mas sinto a cara inundada com um sabor salgado que me recuso a aceitar que sejam lágrimas. É que prometi a mim mesma que não voltaria a chorar. Inacreditável a poucafiabilidade que têm, hoje em dia e passado tanto tempo, as minhas promessas. São tão frágeis que raramente eu própria acredito nelas!

Procuro uma seta que me indique que caminho é este que estou a tomar. Algum sinal que me permita ver,c om mais nitidez, a direcção a seguir...mas em vão. Não há nada, a não ser o próprio caminho, com que me identifique.

Noutros tempos, encontrava o meu caminho, se assim se pode chamar, em cada canto teu. Na tua pele, sabia identificar cada cheiro, cada marca, cada recanto. Nos teus olhos, sabia ver, mais que o meu reflexo, o meu destino. No teu sorriso, ouvia os sons que me mantinham acordada noites a fio, a decorar os pormenores da nossa existência.

No teu toque...no teu toque encontrava, pura e simplesmente, a minha razão de viver.

E agora, não tenho a tua pele, não tenho o teu olhar, não tenho o teu sorriso e não tenho o teu toque. Agora, tenho uma rua que antes foi calcetada e que hoje não me oferece mais que alguns buracos e pedras soltas, bem ao jeito do meu ser.

Alguém está a chamar-me, mas por mais que queria não consigo virar-me nem sequer parar de andar.
Os passos sucedem-se como se fossem mecânicos e as mãos, dentro dos bolsos, já nem as sinto o duficiente para fazer força contra essa mecânica que se instalou em mim.

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