domingo, 30 de novembro de 2008

Fotografia

Tenho-a na mão, a esta fotografia e fito os olhares que sabia fazer, tão espontâneamente, em pequenina.

Então, apercebo-me, não é uma fotografia que tenho na mão, é toda uma caixa de memórias que já não me assolam os pensamentos com a mesma frequência do que terão feito, com certeza anteriormente mas que, asseguro a mim mesma, ainda consigo encontrar com alguma facilidade sempre que tento fazê-lo, de resto.

Há brilhos que se perdem...mas há olhares que ficam, como aqueles que fazia, em pequena, a espera que o flash da máquina fotográfica captasse os meus pensamentos e os meus sonhos.
Só era impossível esperar que olhasse mais tarde para este pedaço de papel e invejasse o olhar maroto e brilhante que sabia oferecer sem esforço, nessa altura...

Onde será que se perdeu, aquele sorriso pequenino que hoje não sei, nem a esforço, fazer da mesma forma?

Era mais fácil se conseguisse ficar presa naquele momento, que agora tenho na mão e que temo em pousar, não vá aquele sorriso perder-se de novo, aquela espontaneidade inocente que trazia segura e como um dado adquirido!

Por breves instantes, revivo tudo o que não volta atrás. Mas, por outro lado, não teria o mesmo som, nem sequer a mesma côr repetir infinitamente os mesmos momentos...
Sou diferente e posso até ter perdido esse sorriso e esse olhar. Mas terei, com certeza, ganho outros...e saberei viver com eles...

sábado, 29 de novembro de 2008

Enquanto durmo


Enquanto durmo, mil estrelas percorrem os meus sonhos.


Sou quem eu quero e viajo por onde quero. Tudo é transformado, tudo é alterado, conforme me aprouver...


Enquanto durmo, os sons são ao meu gosto e as cores estão no sítio certo, logo aí, a espera que lhes toque com o olhar.


Enquanto durmo, as horas passam ao ritmo que eu quero e os momentos bons duram o tempo que desejo.


Enquanto durmo, a luz aquece-me os dias e os sorrisos aparecem sem esforço, sem tentativas frustradas e sem receios, sem que me retraia minimamente.


Porque, enquanto durmo escolho os passos e as ruas por que caminho, escolho as vidas com que me cruzo e escolho os mundos que conheço...


Enquanto durmo, sou quem quiser ser e sinto o que quiser sentir.


Enquanto durmo, os sonhos são a minha realidade e todos eles estão à distancia de um fio de tinta de uma caneta, numa folha de papel.


Com facilidade consigo agarrá-los, prendê-los dentro da mão e saltar, eu própria, para dentro dessa folha amarrotada a que vou chamando "vida".
...Mas apenas enquanto durmo

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Buracos e pedras soltas...

Passo a passo, percorri essa rua que, um dia, foi calcetada. Dela, hoje, sobram apenas buracos e pedras soltas. Irónico, quase a sinto como um retrato meu.

Perco-me em memórias que um dia trouxe mais longe mas que voltam, sem permissão e remexem todos os cantos do meu ser. Tropeço nas pedras que se prendem nos sapatos altos que me ritmam o andar.

Oiço a tua voz, longe, como se ecoasse eternamente na minha mente. Já não sei sequer, à força de tanto repetir as tuas palavras, o que dizes.

Não chove, mas sinto a cara inundada com um sabor salgado que me recuso a aceitar que sejam lágrimas. É que prometi a mim mesma que não voltaria a chorar. Inacreditável a poucafiabilidade que têm, hoje em dia e passado tanto tempo, as minhas promessas. São tão frágeis que raramente eu própria acredito nelas!

Procuro uma seta que me indique que caminho é este que estou a tomar. Algum sinal que me permita ver,c om mais nitidez, a direcção a seguir...mas em vão. Não há nada, a não ser o próprio caminho, com que me identifique.

Noutros tempos, encontrava o meu caminho, se assim se pode chamar, em cada canto teu. Na tua pele, sabia identificar cada cheiro, cada marca, cada recanto. Nos teus olhos, sabia ver, mais que o meu reflexo, o meu destino. No teu sorriso, ouvia os sons que me mantinham acordada noites a fio, a decorar os pormenores da nossa existência.

No teu toque...no teu toque encontrava, pura e simplesmente, a minha razão de viver.

E agora, não tenho a tua pele, não tenho o teu olhar, não tenho o teu sorriso e não tenho o teu toque. Agora, tenho uma rua que antes foi calcetada e que hoje não me oferece mais que alguns buracos e pedras soltas, bem ao jeito do meu ser.

Alguém está a chamar-me, mas por mais que queria não consigo virar-me nem sequer parar de andar.
Os passos sucedem-se como se fossem mecânicos e as mãos, dentro dos bolsos, já nem as sinto o duficiente para fazer força contra essa mecânica que se instalou em mim.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Neve no meu coração

Neva aí, onde estás, meu amor?

Mas como é possível que seja aí que neve caia se é aqui, tão longe, que sinto o meu coração gelar?

Se a neve cai tão longe e aqui é apenas o vento que me acompanha as passadas na rua sozinha, porque será que sinto este gelo cá dentro?



Os vidros que me cercam estão secos. As pessoas passam na rua, e parece-me a mim, que estou gelada, que o frio é bem menor para elas. Não é mera tristeza, isto que sinto.



Alguns diriam que é uma tal de mania da persiguição, ou de que sou vítima. Outros explicariam, com os braços a gesticular e toda uma certeza que eu não tenho, que isto é melancolia...

Mas é muito mais que isso...

Camam-lhe...saudade!

Estranhamente, só o pronunciar da própria palavra me causa um arrepio na espinha e traz a tua imagem para perto de mim. Mais perto do que ela já está, constantemente.

Os teus olhos sabia ler os meus. Mas agora, por muito que oiças as palavras que deixo escapar em alto tom, por mais que leia o que te atreves a escrever...não podes olhar nos meus olhos, não podes sentir o que deixo que apenas tu possas ver.

E a neve que aí cai e aqui não vejo, sinto na pele e na alma, ao mesmo tempo que deixo que o rosto frio se inunde.

Sim, é saudade.

E contra a saudade, segundo sei (e como gostaria de saber mais) nada posso fazer, pelo menos enquanto a neve cair e tu estiveres bem mais perto dela que de mim...