Houve um dia, que hoje me parece tão longínquio em que estive contigo. Estive contigo a todos os momentos, mesmo quando não te podia tocar, mesmo quando a distância estava entre nós, mesmo quando me perdia na chuva, mesmo quando a saudade era maior que tudo. E quando estava contigo, estava também comigo, como em mais nenhuma altura.
Nesse tempo, em que estive contigo, muita coisa nasceu em mim. Muita coisa que não soube definir com clareza, na altura. Soube apenas sentir. Talvez não tenha dado o valor que devia, talvez soubesse o valor que tinha e não me tenha apercebido da importância que tinha para mim, para o alimentar do meu ser que eras, no fim de tudo, tu!
Houve um dia em que o meu sorriso era varrido de qualquer veia de malícia, de qualquer mágoa, de qualquer dor, de qualquer medo. Porque, nesse dia, estava contigo. Nessa altura, esse sorriso era reflectido no teu olhar e no teu próprio sorriso que era meu.
E, nesses dias que passaram, havia um toque que mais ninguém sentia, um olhar que mais ninguém via, um som que mais ninguém ouvia, um perfume que mais ninguém sentia, um amor que mais ninguém vivia!
Nesses dias, as quatro paredes que podiam, ou não, estar a nossa volta eram a protecção do nosso mundo. Nada mais contava, nada mais importava, porque estava contigo. E tu eras o meu ser, o meu coração e eu era o teu ser e o teu coração. E tudo fazia sentido. Na verdade, o sol podia por-se do lado oposto. Não fazia difrença! Porque fazia sentido, se estivesses comigo!
Nesse tempo, corriam lagrimas de saudade pelas horas que passavam em contagem decrescente. Os sonhos sucediam-se. Os momentos acumulavam-se. O amor estava lá.
Podia dizer que foi ironia do destino, que foi por azar, que foi...podia dizer imensas coisas. Na verdade, foi só uma: eu!
Fui eu que afastei de mim a perfeição que contigo fui conhecendo.
Às vezes pensavamos que esta história da perfeição era fruto unica e simplesmente do amor. Não era! A perfeição estava lá. Como sempre, a burrice destruiu-a. Não foram os medos (bem, talvez, um pouco), nem as mágoas (se é que as tinha havido).
Gostava de poder dizer, como numa música tão especial, tão descritiva desta história que me fugiu por entre os dedos: "a nossa história não termina agora". Pois bem, apenas lamento ter deixado que acabasse tão cedo. Que tenha acabdo, simplesmente.
Hoje, podemos lembrar cada momento, cada segundo. Sei que os tens com a mesma precisão que este relógio "tic-tac" que marca os meus passos. Sei que os descreves, se preciso, pelas palavras exactas com que o faço. Sei que os vês com a mesma nitidez com que aconteceram - e acontecem repetidamente, na minha memória. Aliás, podia jurar que os sentes...mas não!
Agora, longe desses tempos, consigo respirar o teu perfume mas, e agora sim, o sol põe-se sem que faça sentido. Porque a contagem já não é decrescente e a saudade já não se mata por entre abraços e beijos que se adivinhavam e se completavam. Já não te espero no terminal dessa linha de um comboio que tardava mas que chegava, nessa altura.
Agora, os meus poros não respiram...são, por ventura, invadidos pelo ar que lhes permite sobreviver, mas que não pedem...é um ar que me é quase impingido!
Agora, o brilho do olhar não é igual...posso até ter vontade de viver - felizmente, ainda a mantenho - e posso até acreditar que vai passar e melhorar - diz-se que o que não nos mata torna-nos mais fortes - mas o embalar dos meus dias é mais lento, perdido entre a linda do tempo e os espaços que percorremos.
Não é eterno, não. Mas eu acrditei que fosse. Infantilidade a minha, sei, já mo disseram. Crenças fortes demais, também. Mas foi assim que levei os dias, foi assim que não contei as horas - pois contá-las, como me permiti fazer outrora, era enloquecer - foi assim que sorri.
E sorrio, sim. Não posso deixar de sorrir e fazer sorrir. Mas quando o sol se pões, lá desse lado que já não sei qual é, eu estou só. E quando todos dormem e sonham (julgo eu, pois eu fazia-o), eu estou sóbria de sono. O mesmo é dizer, desperta!
Fico acordada, a espera que as memórias me deixem descansar, fechar os olhos, mas elas teimam em ficar. E ficam mesmo.
Hoje sei o verdadeiro valor que tinha o teu olhar, o teu sorriso, o som da tua voz, o ritmo do teu paço, a cor do teu cabelo, o cheiro do teu perfume, o sabor do teu beijo, as linhas do teu corpo...o teu coração que era meu.
Hoje, que sei de tudo isto, sei também que o tempo não perdoa...e não perdoou. E "quando a chuva passar", como passava antes...não estarás lá, para me enxugar. Para me tirar do frio, entre o teu colo e os abraços que eram so teus.
E, mesmo que as lágrimas encham os meus olhos, prometo que não choro, como diz uma música que me acompanha...porque saber-te a sofrer me fez sempre sofrer e continua a ter o mesmo efeito! E sei que, pelo carinho que nunca poderemos perder, achas que me fazes sofrer.
Pois então deixa-me corrigir-te: não és nem foste tu que me fizeste sofrer. Porque pior que o que poderei sofrer com a ausência de tudo o que fomos, naqueles dias, é saber que, ainda nesses dias, te causei eu a perda inesperada do que era, já, a nossa vida.
E, agora, ainda que com peso na alma e dor no coração, por saber o quando o tempo roubou de mim a possibilidade de te trazer de novo para junto do meu peito, a possibilidade de voltar a adormecer no teu abraço, saber-te bem é um consolo inconsolado......
Perder tudo o que hoje sonho que poderia viver a cada momento, lembrar os teus traços e o teu riso, o teu orgulho em mim, em momentos importantes que vivo agora faz-me gelar um pouco mais o sangue que devia correr quentes nas veias salientes e no pulsar do coração.
A vida está cá, e vivo-a...mas nunca terá o mesmo sabor sem ti...
*Coelhinha*