Uma chavena de chá. O fumo do cigarro que aperto entre os dedos. O olhar vazio.
Tudo se funde: cheiros, cores, sabores.
Não tento sequer diferenciar o que me rodeia, porque a névoa é maior que a minha vontade.
Queimo os lábios porque me esqueci de soprar esse líquido "cor de burro quando foge" (seja lá o que isso for) de sabor a maçã e canela. (o único que me faz lembrar de bons momentos).
O cigarro já não sabe a nada, mas não o apago. Como se fosse uma pastilha sem sabor que continuo a mascar sem parar, com esperança, com certeza, de que ela volte a ter doce para me satisfazer, como se eu fosse uma criança.
Solto as memórias, deixo-as fugir. De qualquer modo, sei que elas voltam, sem que sequer as chame!
Não há nada que mais que console que o quente nas mãos. Faço de conta que assim também aqueço o coração!
Se há momentos em que nos sentimos "super-humanos", este não é um deles, para mim.
Juntamente com o fumo que sai da chávena e o fumo do cigarro, sinto também, em forma de névoa cinzenta, as minhas fraquezas e cobardias. Aquelas que não vejo, no dia a dia e que, espero silenciosamente, os outros também não vêem.
Aos poucos, vejo-as tomar forma e, então, fecho os olhos. Não quero encará-las mais uma vez.
Levo o cigarro à boca e puxo o fumo, como se tivesse esperança que, assim, puxasse também as fraquezas para dentro de mim, de novo.
Mas elas teimam em ficar. E vão ficar até que lide com elas...
Mas não será hoje. Hoje estou cansada, exausta...
Apago o cigarro. Acabo de beber o chá. Levanto-me rapidamente e fecho a porta atrás de mim.
As fraquezas que lá fiquem dentro ou que me acompanhem (já que o mais certo é que consigam passar pelo buraco da fechadura). Mas não vou lidar com elas hoje.
Que ideia a minha: beber chá e fumar um cigarro...toda a gente sabe que o fumo puxa as memórias e que estas puxam as fraquezas...e eu não tenho tempo para isso!
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
pensamentos de uma noite de Natal...
"Vejo sorrisos à minha volta...sorrisos apenas, como se nenhuma razão houvesse no mundo, para tristezas. Em cada um deles, tento ver o teu sorriso, mas não me é possivel. Não que não sejam bonitos, todos eles. Mas nenhum é o teu.
As horas e os dias passam a uma velocidade bem diferente desde que não estás...
É meia noite.
A histeria da distribuição dos embrulhos começou. Em cada presente que pego, penso naqueles que trocámos. E arreopendo-me dos que não chegámos a trocar. Dos que pensei dar-te e não dei; dos que me quiseste dar e não recebi. Agora, tudo e diferente.
Os "obrigados" e os beijinhos correspondentes lembram-me apenas daquele último beijo que trocámos e que tentei não lembrar, depois.
Podia ser um dia feliz, este. Mas já não é... Já não é senão uma lembrança dura que tenho que carregar dentro do peito, ano após ano e que tento esquecer o mais possível. (Não a ti, isso nunca...apenas à dor que o dia me traz).
Sentada no sofá, frente a frente com o lume alto da lareira e coberta com uma manta quente, tentando tornar os papeis de embrulho numa pequena bola que esmago com força,perco me em lembranças de alturas diferentes da minha vida, em que estavas sempre presente.
De quando me tiravas o medo, de quando me davas força para continuar, de quando me fazias chorar (também houv desses momentos) e quando me abraçavas, de quando me beijavas, noutros tempos da nossa existência, de quando me davas a mão em jeito de coragem, de quando me dizias que tinhas orgulho em mim e de quando me dizias que a nossa amizade nunca querias perder. De quando me pegavas ao colo ou corrias comigo as cavalitas. De quando caminhávamos, tão simplesmente, lado a lado.
De quando nos cruzámos, na minha primeira queima e dançamos abraçados, só porque nos fazíamos sorrir um ao outro.
De quando eras meu...de quando era tua.
E de quando não o fomos, também.
Toda a gente sorri e, incrivelmente, não conseguindo encontrar o teu sorriso, uma lágrima cai.
As imagens que agora me assolam a memória são mais duras, mais frias e mais crueis.
Mas, até mesmo estas, acabam por se esgotar. Deixaram de se somar...
Como se a minha vida tivesse terminado há exactamente três anos.
E terminou, pelo menos uma parte dela.
Conheci o que é a dor, aquela dor verdadeira que nunca mais nos deixa, por muito que, por vezes, pareça acalmar. A dor de perder alguém, para sempre.
A minha vida não se foi com a tua (às vezes preferia assim), mas uma parte de mim deixou de viver nessa noite.
Na noite de Natal. Parece-me completamente impossível que haja alguém tão poderoso e tão bom, segundo me foi dado a conhecer, que seja capaz de tal crueldade.
Muitos me julgarão, com certeza, por proferir tal julgamento mas a verdade é que muito de mim mudou nessa noite. E se uma parte do meu coração foi contigo, uma parte das minhas crenças também foi.
Não me interpretem mal: acredito na existência desse ser...só não lhe conseguirei ser tão devota como fui, até me seres tirado...
Como posso agradecer-Lhe todos os dias, quando entro na Sua casa, de quando em vez, para ver brilhar os olhos dos que mais quero, tal é a saudade e a dor, num dia que todos dizem que é feliz?
Pede or mim, se estiver errada, já que és agora o meu anjo...
Mas entretanto e sem sequer pedir perdão, acredito apenas que estás comigo. Apenas não da forma que queria.
Não, não é egoísmo. Pois como pode ser egoísmo, se no fim do teu nome pronunciado, estamos todos os que partilham destas memórias que me assolam o peito e a memória, de cabeça perdida e coração dilacerado com a falta que fazes?
Três anos...três anos é muito tempo...mas é tão pouco quando penso naqueles que ainda vou ter que enfrentar...no número de vezes que vou passar por esta noite e vou ver sorrisos sem ver o teu, vou sentir abraços sem sentir o teu, vou ficar sentada à lareira a recordar...e a história vai terminar sempre no mesmo momento, pois não estiveste para construir mais....
É noite de natal...faz três anos que partiste!
As perguntas nunca vão deixar de aparecer...
Tenho saudades...para sempre!"
Para o Luis, meu eterno arco-íris, meu principe...
Uma rosa vermelha, um beijo, uma lágrima, uma festa no cabelo... :'(
(música: Shania Twain - You're still the one...porque sempre foi a nossa música, porque me iluminou em tantos momentos o caminho, porque nos levou um ao outro outras mais...e será sempre a banda sonora das minhas memórias...)
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
saudades...

Tenho saudades...
Tenho saudades de rir até me doer a barriga e, mesmo assim, não conseguir parar;
Tenho saudades de saltar da cama com vontade de cantar, logo de manhã;
Tenho saudades de contar os minutos até ouvir a campaínha (mesmo que só no meu imaginário) e, finalmente, sair para aqueles intervalos de café e conversas;
Tenho saudades de andar de mão dada sem pressas e sem pesos;
Tenho saudades de esperar ansiosamente pelo sábado a noite para vestir aquela roupa, que guardei toda a semana, e ir dançar;
Tenho saudades de decidir o que me apetecesse na altura sem ter receio de que depois me fosse cobrado;
Tenho saudades de ficar sentada, à noite, num banco de jardim, como se as horas não passassem e quisesse ficar ali eternamente;
Tenho saudades de bastar um sorriso para incendiar a minha alma;
Tenho saudades dos abraços e das lágrimas de emoção;
Tenho saudades de ficar em casa, toda a noite, a rir e a contar novidades, a dizer disparates e a rir de mim mesma, porque não havia razão para não o fazer;
Tenho saudades dos almoços hilariantes, que acho hoje que me satisfariam mesmo se não comesse, só pelos bons momentos;
Tenho saudades do frio me cortar a pele e mesmo assim, sair a rua;
Tenho saudades do sol me queimar o rosto e, mesmo assim, não querer ficar à sombra;
Tenho saudades de sentir o vento na cara e pronteger-me, de resto, com aquela capa negra, tão minha, tão íntima, tão fiel;
Tenho saudades de vestir as meias, a meio da noite e levantar-me, percorrer a casa e sentir o nervoso miudinho que adivinha algo importante, no dia seguinte;
Tenho saudades de chegar a sexta feira e sentir, realmente, que era sexta feira;
Tenho saudades de pintar as unhas e ficar feliz só por isso;
Tenho saudades de ir as compras, com o sentimento de poder comprar quase tudo o que quisesse, mesmo que, na realidade, não pudesse comprar absolutamente nada;
Tenho saudades de comer gelado e lambusar o nariz e rir, quando mo limpavam;
Tenho saudades de pular em cima da cama;
Tenho saudades de estar deitada na praia, a ouvir musica e fazer longas , dentro de mim, de cenas de filme, com aquela mesma banda sonora;
Tenho saudades de ver o telefone tocar e ver o nome da pessoa em que estava a pensar nesse mesmo momento;
Tenho saudades de chover e eu não querer sequer abrigar-me;
Tenho saudades de me sentir bonita;
Tenho saudades de ser mimada;
Tenho saudades de sentir que tudo fazia sentido, porque eu assim o queria;
Tenho saudades de encomendar pizzas e beber ice tea;
Tenho saudades de fritar batatas e calamares para comer, a meio da tarde;
Tenho saudades de ficar meias horas ao telefone, um par de horas depois de ter estado com a pessoa, porque até o chilrear de um pássaro, na rua, servia de pretexto, como qualquer outra novidade;
Tenho saudades de quando cada beijo parecia o primeiro beijo;
Tenho saudades de me aninhar e fingir que la fora está uma tempestade assustadora, só para me sentir protegida de tudo;
Tenho saudades de ter todos os meus amigos comigo, de ter aquele amigo junto de mim;
Tenho saudades de sentir o cheiro da pele e o jeito do cabelo do meu melhor amigo;
Tenho saudades de poder lembrar alguém sem uma dor no peito.
Tenho saudades...
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