Escrever-te com o coração pesado é saber que me ouves como se escrevesse de qualquer outra forma. Como se falasse contigo, como fiz tanta vez, na cabeceira da tua cama, sentada ao teu lado ou até pelo telefone: com o coração.
Ouviste histórias do meu dia a dia com a mesma atenção com que ouviste as histórias mais importantes da minha vida: com o coração.
Soubeste sempre o tamanho do meu amor por ti porque foi sempre do mesmo tamanho do teu amor por mim: infinito!
E eu ouvi-te a ti, contar histórias que, a mim, me pareciam saidas de contos de fadas! A maneira como conheceste o amor da tua vida, a forma como se apaixonaram e coomo ele fez de ti a mulher que te tornaste e em que nos tornaste a nós.
Sempre que me senti sozinha, fizeste-me ver que, contigo, nunca estaria sozinha.
Cuidaste de mim, desde que nasci e até poderes. E eu cuidei de ti, assim que pude fazê-lo.
Ninguém poderá saber o significado da nossa cumplicidade!
Quantas vezes me disseste que eu era a tua melhor enfermeira...e como me sentia orgulhosa por saber cuidar de ti...
Falávamos com o olhar, não era, meu amor?
Às vezes, quando amamos muito alguém, por muito que saibamos que ninguém é eterno, convencemo-nos de que esse dia não chega. E o mundo não tem piedade desse amor!
Tenho saudades do teu colinho, do teu sorriso, dos beijos que me mandavas de longe, a sorrir ao mesmo tempo...tenho saudades de ouvir-te chamar-me Kika, de escolher a roupa para vestires, de te pintar as unhas.
Tenho saudades tuas! Quantas saudades...
Queria levar-te, no Verão, a comer caracois e a beber a tua imperial, que te fazia passar a mão na barriga e exclamar um "aaah" de prazer...fazias-me rir e ficar emocionada pela forma como te dava tanta alegria um momento tão simples.
Tenho saudades do teu cheirinho, quando me abraçavas, tenho saudades de me pedires para fazer as minhas massas, que adoravas.
Deste sempre um toque teu a cada momento. A cada um de nós!
Clarinha, Genito, Sãozinha, Ju, Fifi Xuxu, Bruninho, Kika, Sacaninha...cada um de nós tem, dentro do peito, um nome que só tu usavas (e que nem gostávamos, porque crescemos, e agora adoramos, porque te perdemos).
Fui a tua menina, e tu foste a minha rainha! Fomos uma da outra em tantos momentos que não posso contabilizar. Mas consigo vê-los a todos!
Sei que não duvidaste, por um só segundo, do quanto te amava, do papel que tiveste sempre na minha vida, do quanto queria cuidar de ti para sempre. Mas, ainda assim, não deixo de ter o coração pesado pelas vezes que não te disse o quanto precisava de ti, enquanto podias ouvir-me!
Amo-te tanto, meu amor...
Foste avó, amiga, mãe, cumplice, confidente de tantos momentos, tantas memórias, tantos receios, tantos amores e desamores...e soubeste sempre ouvir-me sem julgar, sem deixar de te por no meu lugar.
Queria poder ter-te nos meus braços de novo...mas sei que é impossível. E por mais que me revolte, por mais que me doa, por ti, só tenho amor!
Sei que estás livre, junto dos teus amores, aliviada e em paz. Sei que sabes o quanto te amamos, o quanto sentimos a tua falta.
Ai...quanta falta me fazes, meu amor, quanta falta me faz o teu olhar, o teu sorriso, o teu colo, o teu mimo...quanta falta me faz a tua voz e a tua mão na minha, quanta falta me faz poder ter-te comigo...
Hei-de honrar sempre a tua memória, o teu ser. Foste a mulher mais corajosa que conheci, tenho orgulho em ti e terei sempre o teu amor como chão, como tecto, como fio condutor.
Amo-te tanto quanto é possivel amar-se alguém...